Intervenção realizada na Assembleia de Freguesia de Molelos no dia 22 de Junho sobre a Reorganização Administrativa Territorial Autárquica.
"A reorganização do território é um assunto que tem
despertado um alarido característico neste pedaço de terra falido que tem o
nome de Portugal. Atualmente o cidadão comum sente na pele o que um conjunto de feras
incompetentes produziu ao longo de muitos e muitos anos.
Enquanto jovem, não me contenho em palavras para descrever
tanta incapacidade, tanta incompetência, tanta ganancia, tanto egoísmo, tanto
desrespeito pelas gerações vindouras.
Se o povo foi responsável por eleger determinados senhores
também tem o direito e o dever de solicitar bem alto que se apure como e quem efetivamente
nos conduziu a tamanho descalabro económico mas sobretudo social.
Infelizmente todos nós conhecemos pessoas que estão a passar
dificuldades económicas extremas.
Existem tantas, tantas crianças que partilham com os seus
pais a escassez de recursos financeiros para as mais elementares necessidades.
Existem tantos jovens à espera de uma oportunidade para
mostrarem os seu real valor, uma
oportunidade para demonstrem o que
apreenderam durante longos anos de estudo, uma oportunidade para se realizarem
pessoal e profissionalmente de forma a
realizarem os seus sonhos.
Existem, tantos anónimos com 40, 50, 60 anos que perderam o
seu posto trabalho. O trabalho que lhes permitia pagar um empréstimo. O
trabalho que permitia ter os filhos a estudar. O trabalho que permitia ter um
lar onde os bens essenciais não faltavam.
Existem empresas sufocadas, empreiteiros que viram como
única solução o despedimento de quem durante uma vida os ajudou a crescer. As
obras pararam. O comércio local está estagnado. Não conseguimos produzir e o mercado vai-nos oferecendo o
melhor e o pior da China.
Já para não falar dos idosos.
Os nossos idosos são quem merecem o mais profundo respeito.
São responsáveis pela nossa identidade. Muitos sobreviveram ao longo da sua
vida com muito pouco, mas conseguiram alimentar 6, 7 e 10 filhos, fazer uma
casa e deixar heranças.
Em troca, sobrevivem com miseras reformas que são
canalizadas para as farmácias, para ajudar os filhos, os netos e bisnetos.
Que pobre cenário. Que triste realidade!
Parece que vivemos incrédulos com esta calamidade pública e
que pouco ou nada podemos fazer, contudo, existem pessoas, provavelmente já a
pensar nas próximas eleições autárquicas que estão extremamente empenhadas em
colocar na ordem do dia a Reorganização do Território como um problema trágico
para as pessoas deste país.
A reorganização do território não devia ser um problema mas
sim uma oportunidade de otimizar recursos e serviços. Pensar globalmente um
território traz mais-valias, ao invés de se criarem infraestruturas abuso sem
qualquer certeza de rentabilidade.
Critico ferozmente quem no passado não soube utilizar o
dinheiro publico e comprometeu o presente e o futuro do nosso país. Contudo por
outro lado não posso apoiar vivamente uma lei que penaliza algumas freguesias.
No caso concreto de Molelos, que é a freguesia que defendo,
penso que esta lei não vai trazer significantes alterações. Quer sejamos ou não
agregados a outras freguesias, Molelos não vai perder a sua identidade.
Possuímos um movimento associativo dinâmico e único. Temos
um Clube Atlético de Molelos que possui umas instalações de referência, que
promove a formação e capta as atenções de quem gosta de futebol domingo após
domingo.
Temos uma Escola de Futebol de Molelinhos que para além de
participar no escalão máximo do futebol português, forma atletas que compõem a
seleção nacional.
Temos dois ranchos, os Velhos costumes e As Cantarinhas que
divulgam o nome de Molelos em muitos pontos do país e estão sempre dispostos a
colaboram com as demais iniciativas concelhias.
Temos um grupo de cicloturismo, Os sempre a 30 que são uma
referência na estrada e na organização de provas d reconhecido valor.
Temos a AJUDA que promove atividades diversas e dinamiza a
localidade do Botulho.
Temos um grupo de escuteiros recetivo a promover os mais
elevados valores junto dos mais jovens.
Temos a SMIR que possui um dos maiores espetaculares espaço
para a realização de eventos no Concelho de Tondela. Apesar da sua alternância
pauta-se por organizar anualmente as festas do padroeiro da freguesia.
Além do movimento associativo, Molelos tem uma identidade
muito própria que caracteriza cada localidade que constitui esta nobre
freguesia.
No Botulho realiza-se
anualmente a Santa Luzia e a Nossa senhora da Ajuda. Em Molelinhos a Senhora
dos Remédios. Na Vela o São Pedro. No Casal o Santo António. Enquanto na
Raposeiras lançam-se foguetes para o ar.
Temos a louça preta. Provavelmente a maior bandeira desta
freguesia. Possuímos um dialeto própria, o galreamento. Isto é a nossa
identidade.
Temos um padre que contribuiu significativamente para o
desenvolvimento desta terra.
Possuímos as melhores infraestruturas desportivas e
rodoviárias. Temos constantes requalificações. Alargam-se becos e caminhos.
Recuperam-se fontanários. Implementam-se estátuas. Até o “Ganito” teve direito
a tal distinção.
Temos um presidente de Junta teimoso mas que faz obra.
Quer queira-mos quer não esta é a nossa identidade. Não
haverá lei nenhuma que destrua a identidade de uma terra e de um povo.
Sr. Presidente, entendo que não queira ser o “coveiro” da
freguesia de Molelos. Estou certo que nenhum dos presentes apoia tal intensão.
Contudo, temos que estar preparados para as mudanças. E o
futuro impõe sérias reestruturações do território, sérias mudanças de hábitos e
costumes. Sou frontalmente contra esta lei, nos moldes como foi imposta, mas
estou recetivo a muitas mudanças que visem alterar o triste cenário que descrevi
no início desta intervenção.
Parece-me que este assunto é uma guerra perdida. Bem ou mal
vai nos ser imposto a redução ou aglomeração de sete freguesias do concelho de
Tondela, sendo uma que já esta escolhida, Silvares.
Perante isto, o que o sorteio ditar, temos que acolher e
aceitar. Penso que todas as manobras e tentativas de travar esta lei vão ser em
vão porque temos que respeitar os compromissos que o PS colocou no memorando da
Troika e o PSD subscreveu.
Contudo, Sr. Presidente estou solidário com a posição que os
presidentes de junta do concelho de Tondela tomaram porque não me revejo também
na ideia de colaborar na extinção da freguesia de Molelos."
